UCS-Produtore I
          Ago/2003 - Jul/2005
UCS-Produtore II
          Ago/2005 - Jul/2007
Referências
Sobre Gêneros Textuais
Inventário de Gêneros Textuais
Circuito dos Gêneros
Fotos
Revista Usina das Letras
Conferência Bronckart
 

 

 

SOBRE OS GÊNEROS TEXTUAIS

 

Prof. Dr. Marcos Baltar - UCS

Há muito se tem falado em leitura e produção de textos nas nossas salas de aula. Entretanto uns professores pedem para os alunos escrever uma redação, outros pedem uma pequena narrativa, outros um pequeno texto, outros uma composição, outros pedem para que os alunos escrevam cartas, bilhetes, anúncios, contos, etc.

Na tentativa de resolver essas hesitações terminológicas, e a título de sistematização de nosso trabalho de pesquisa-ação UCS-PRODUTORE: laboratório de produção e de recepção de textos – os gêneros textuais, proporemos as seguintes definições:

  • Chamaremos de TEXTOS as unidades básicas de ensino que se organizam sempre dentro de certas restrições de natureza temática, composicional e estilística, o que os caracteriza como pertencentes a um determinado gênero textual. Para os PCN, por exemplo, o texto e a noção de gênero textual, constitutiva do texto, precisa ser tomada como objeto de ensino em nossas escolas.

Em Bronckart (1999 p. 75) lê-se : “[...] chamamos de texto toda a unidade de produção de linguagem situada, acabada e auto-suficiente (do ponto de vista da ação ou da comunicação). Com relação ao texto empírico o autor diz:

[...] todo o texto empírico é o produto de uma ação de linguagem , é sua contraparte, seu correspondente verbal ou semiótico; todo o texto empírico é realizado por meio de empréstimo de um gênero e, portanto, sempre pertence a um gênero; entretanto todo texto empírico também procede de uma adaptação do gênero-modelo aos valores atribuídos pelo agente à sua situação de ação e, daí, além de apresentar as características comuns ao gênero, também apresenta propriedades singulares, que definem seu estilo particular. Por isso, a produção de cada novo texto empírico contribui para a transformação histórica permanente das representações sociais referentes não só aos gêneros de textos (intertextualidade), mas também à língua e às relações de pertinência entre textos e situações de ação.” (Bronckart 1999 p.108).

  • chamaremos de GÊNEROS TEXTUAIS a diversidade de textos que ocorrem nos ambientes discursivos de nossa sociedade, os quais são materializações lingüísticas de discursos textualizadas, com suas estruturas relativamente estáveis, conforme Bakhtin, disponíveis no intertexto para serem atualizados nos eventos discursivos que ocorrem em sociedade; em outras palavras os Gêneros Textuais são unidades triádicas relativamente estáveis, passíveis de serem divididas para fim de análise em unidade composicional, unidade temática e estilo, disponíveis num inventário de textos (arquitexto ou intertexto), criado historicamente pela prática social, com ocorrência nos mais variados ambientes discursivos, que os usuários de uma língua natural atualizam quando participam de uma atividade de linguagem, de acordo com o efeito de sentido que querem provocar nos seus interlocutores.

Vejamos o que nos diz Bronckart (1999 p. 137):

Na escala sócio-histórica, os textos são produtos da atividade de linguagem em funcionamento permanente nas formações sociais: em função de seus objetivos, interesses e questões específicas, essas formações elaboram diferentes espécies de textos, que apresentam características relativamente estáveis (justificando-se que sejam chamadas de gêneros de textos) e que ficam disponíveis no intertexto como modelos indexados, para os contemporâneos e para as gerações posteriores.

  • chamaremos de MODALIDADES DISCURSIVAS as formas de organização lingüístico-discursivas em número limitado que existem e que são percebidas no folhado textual dos gêneros textuais na forma de predominância, com a finalidade de produzir um efeito discursivo específico nas relações entre os usuários de uma língua, como é o caso do narrar, do relatar, do argumentar, do expor, do descrever e do instruir. Poderíamos acrescentar ainda a modalidade discursiva do dialogar e o autotélico, esse último conforme (Adam, 1992).
  • chamaremos SEQÜÊNCIAS TEXTUAIS os modos deorganização linear que visam a formar uma unidade textual coesa e coerente, que vão expressar lingüisticamente o efeito de sentido que as modalidades discursivas pretendem instaurar na interação entre os interlocutores de uma atividade de linguagem. De acordo com as modalidades discursivas e a serviço da sua textualização em um determinado gênero textual, as seqüências textuais, homônimas dessas modalidades discursivas são fruto de uma reestruturação da unidade temática de um texto de um determinado gênero textual, organizado na mente do produtor desse texto de forma lógica em macroestruturas semânticas, que operam no eixo paradigmático da escolha e no eixo sintagmático da combinação, que necessitam, no ato de sua textualização, serem organizadas linearmente para a formatação de um texto.
  • chamaremos de SUPORTES TEXTUAIS os espaços físicos e materiais onde estão grafados os gêneros textuais, como por exemplo, o livro, o jornal, o computador, o folder, o manual de instrução, a folha da bula de remédio, etc. Numa concepção ampla de texto, sob o ponto de vista da semiótica, a televisão, o cinema, o rádio o “outdoor” também podem ser considerados como suportes textuais. Marcuschi (comunicação pessoal) aponta para alguns suportes denominados “incidentais” e dá como exemplo uma tatuagem afixada em um a parte do corpo humano, ou ainda uma inscrição produzida no céu – no ar – por um avião da esquadrilha da fumaça. Poderíamos acrescentar a areia da praia que serve de suporte para pequenos poemas, tal qual os troncos de árvores; ou, até mesmo, as portas dos banheiros de nossas universidades.
  • chamaremos de AMBIENTES DISCURSIVOS os lugares ou as instituições sociais onde se organizam formas de produção com respectivas estratégias de compreensão onde ocorrem as atividades de linguagem, através dos textos empíticos classificados em gêneros textuais; por exemplo, o Ambiente Discursivo escolar, acadêmico, mídia, jurídico, religioso, político, etc. Há ainda que se considerar que esses ambientes discursivos os “lieux sociaux” podem ser recortados em formações discursivas, de acordo com as suas formações sociais, conforme (Foucault, 1969).
  • chamaremos de EVENTOS DISCURSIVOS as atividades de linguagem que se dão no tempo e em determinados ambientes discursivos, através de gêneros textuais constituídos de modalidades discursivas e de seqüências textuais, envolvendo enunciadores determinados, com objetivos específicos de interagir com enunciatários reais.
  • admitiremos o uso de GÊNEROS DE DISCURSO, como o discurso do judiciário, da mídia, da escola, da academia, o discurso religioso, o familiar, o político, etc.; referindo-se respectivamente aos AMBIENTES DISCURSIVOS correspondentes.

Obs.: Enquanto que o número de gêneros textuais numa determinada sociedade é, em princípio, ilimitado, ampliando-se de acordo com os avanços culturais e tecnológicos, sendo passível de se fazer um corte sincrônico num determinado tempo e lugar, para efeito de análise, o número de modalidades discursivas é menor e mais ou menos limitado. Vejamos a seguinte tabela para melhor compreender estas definições :

Tabela 1. Terminologia

GÊNERO TEXTUAL

MODALIDADE DISCURSIVA

SUPORTE DO TEXTO

AMBIENTE DISCURSIVO (INSTITUIÇÃO)

INTERAÇÃO VERBAL ENUNCIADORES

NOVELA

Narrar

Televisão

Mídia televisiva

Autores telespectadores

CRÔNICA

Expor / Argumentar

 

Seção coluna de jornal/revista

Mídia impressa jornal/revista

Escritor leitor de jornal/revista

ROMANCE

Narrar

Livro

Indústria literária

Escritor leitor

ENTREVISTA

 

Interativo/Dialogal

Revista

Mídia escrita

Jornalista e entrevistado/leitor

CARTA OFÍCIO

Expor/Argumentar

 

Folha papel timbrado e envelope

Acadêmico escolar oficial

Universidade/Escola

Prefeitura

BIOGRAFIA

Relatar

 

Livro

Indústria Literária

Escritor/Leitor

 

MANUAL DE INSTRUÇÃO DE TV

Instruir

 

Folheto, folder, livro impresso

Indústria-comércio (mercantil)

Empresa indústria cliente

CHEQUE

Expor/Instruir

 

Talão de cheque

Bancária

Cliente - banco

EDITORIAL

Argumentar/Expor

 

Jornal /revista impressos

Mídia jornal impresso

Empresa (jornal/revista) leitor

NOTICIÁRIO

Relatar

 

Jornal tevê rádio

Mídia

Apresentador público

NARRAÇÃO DE JOGO DE FUTEBOL

Narrar

 

Rádio/TV

Mídia esportiva

Narrador – ouvintes/telespecta-dores

 

Ver Marcuschi (2000), e Bronckart (1999).